A Imutabilidade de Deus.
[Autoria: Profº. Vicente Paula Leite
 

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Podemos definir a imutabilidade de Deus assim: Deus é imutável no seu ser, nas suas perfeições, nos seus propósitos é nas suas promessas; porém, Deus age e sente emoções, e age e sente de modos diversos diante de situações diferentes. Esse atributo de Deus é também chamado inalterabilidade.

Evidências nas Escrituras: no Salmo 102, encontramos um contraste entre coisas que podemos julgar permanentes, como a terra ou os céus, de um lado, e Deus, do outro. Diz o salmista: “Os animais que pululam no campo. Se eu tivesse fome, não to diria, pois o mundo é meu e quanto nele se contém” (SI 50.10-12).

“Em tempos remotos, lançaste os fundamentos da terra; e os céus são obras das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permaneces; todos eles envelhecerão como uma veste, como roupa os mudarás, e serão mudados. Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim”. (SI 102.25-27)

Deus existia antes da criação dos céus e da terra e existirá muito depois da destruição dessas coisas. Deus faz mudar o universo, mas, contrastando com essa mudança, ele é "o mesmo".

Referindo-se às suas próprias virtudes da paciência, da longanimidade e da misericórdia, diz Deus: "Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso, vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos" (MI 3.6). Aqui Deus usa uma afirmação genérica da sua imutabilidade para se referir a alguns aspectos específicos nos quais ele não muda.

Tiago lembra aos seus leitores que todos os dons excelentes provêm, em última análise, de Deus, "em quem não pode existir variação ou sombra de mudança" (Tg 1.17). Seu argumento é que, como os dons excelentes sempre vieram de Deus, podemos estar seguros de que somente dons excelentes virão dele no futuro, pois o seu caráter jamais muda, nem sequer em grau mínimo.

A definição dada acima especifica que Deus é imutável - não de todos os modos que possamos imaginar, mas somente nos aspectos que as próprias Escrituras o afirmam. As passagens bíblicas já citadas referem-se ou ao próprio ser divino ou a algum atributo do seu caráter. Disso podemos concluir que Deus é imutável, pelo menos com respeito ao seu "ser" e com respeito às suas “perfeições” (ou seja, os seus atributos ou os vários aspectos do seu caráter).

O grande teólogo holandês Herman Bavinck observa que o fato de Deus ser imutável no seu ser é de máxima importância para a manutenção da distinção Criador/criatura e para nossa adoração de Deus:

A definição dada acima também afirma a imutabilidade ou inalterabilidade de Deus com respeito aos seus propósitos. "O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações" (SI 33.11). Essa afirmação genérica acerca do conselho de Deus é sustentada por vários versículos que falam sobre planos ou propósitos divinos específicos para toda a eternidade (Mt 13.35; 25.34; Ef 1.4, 11; 3.9,11; 2Tm 2.19; 1Pe 1.20; Ap 13.8). Uma vez tendo determinado que irá seguramente fazer algo, o propósito de Deus é imutável e será realizado. De fato, Deus afirma por meio de Isaías que ninguém mais é como ele nesse particular: “Eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade [...] Eu o disse, eu também o cumprirei; tomei este propósito, também o executarei” (Is 46.9-11).

Além disso, Deus é imutável nas suas promessas. Uma vez tendo prometido algo, Deus não será infiel a essa promessa: "Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá?" (Nm 23.19; cf. 1Sm 15.29).

Será que Deus às vezes muda de idéia? Se, porém, falamos que Deus é imutável nos seus propósitos, surpreendemo-nos intrigados diante de passagens bíblicas em que Deus diz que julgaria o seu povo, mas depois, por causa de orações ou do arrependimento do povo (ou ambas as coisas), acaba-se apiedando e não condena como dissera que o faria. Entre os exemplos de recuo depois de ameaça de juízo estão a bem-sucedida intervenção de Moisés com oração para evitar a destruição do povo de Israel (Êx 32.9-14), o acréscimo de quinze anos à vida de Ezequias (Is 38.1-6) e o fato de Deus ter voltado atrás na decisão de julgar Nínive, diante do arrependimento do povo (Jn 3.4, 10). Não serão casos em que os propósitos de Deus de fato mudaram? E há também outras passagens nas quais se diz que Deus está arrependido de ter feito alguma coisa. Basta pensar no arrependimento de Deus de ter feito o homem na terra (Gn 6.6), ou no arrependimento de ter ungido Saul rei (1Sm 15.10). Os propósitos de Deus afinal não mudaram nesses casos?

Esses exemplos devem todos ser entendidos como expressões verdadeiras da atitude ou intenção presente de Deus diante da situação que existe naquele momento. Se a situação muda, então é claro que a atitude ou expressão de intenção divina irá também mudar. Isso quer dizer somente que Deus reage de modos diversos a situações diferentes. O exemplo da pregação de Jonas aos habitantes de Nínive nos é útil aqui. Deus vê a iniqüidade de Nínive e envia Jonas para proclamar: ”Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (Jn 3.4). A possibilidade de que Deus sustasse o juízo se o povo se arrependesse não é explicitamente mencionada na proclamação de Jonas registrada nas Escrituras, mas está logicamente implícita na advertência: o propósito da proclamação da advertência é provocar o arrependimento. Uma vez havendo o povo se arrependido, a situação era diferente, e Deus reagiu de modo diverso a essa nova situação: "Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez" (Jn 3.10).

Os casos de Ezequias e da intercessão de Moisés são semelhantes: Deus dissera que enviaria o juízo, e era uma declaração verdadeira, desde que a situação permanecesse a mesma. Mas a situação mudou: alguém começou a orar sinceramente (Moisés num caso e Ezequias no outro). Aqui a própria oração fazia parte da nova situação e de fato foi o que mudou a situação. Deus reagiu a essa nova situação atendendo a oração e sustando o juízo. Os casos do arrependimento de Deus diante da criação do homem e do fato de ter feito Saul rei também podem ser entendidos como expressões do descontentamento presente de Deus diante da pecaminosidade do homem. Em nenhum desses casos a linguagem é forte o bastante para nos fazer pensar que se Deus pudesse começar de novo e agir de modo diferente, de fato não criaria o homem nem faria Saul rei. Pode, em vez disso, subentender que a ação divina anterior conduziu a acontecimentos que, a curto prazo, lhe trouxeram pesar, mas que assim mesmo, a longo prazo, acabariam realizando os seus bons propósitos. Isso é em certo sentido comparável à conduta do pai humano que permite que seu filho tome um caminho que ele sabe que trará muito pesar, tanto ao pai quanto ao filho, mas assim mesmo o permite, pois sabe que um bem maior e duradouro advirá disso.

A questão da impassibilidade de Deus. Às vezes, discutindo os atributos divinos, os teólogos falam noutro atributo, a saber, a impassibilidade de Deus. Esse atributo, se verdadeiro, significaria que Deus não tem paixões nem emoções, mas é "impassível", não sujeito a paixões. De fato, o capítulo 2 da Confissão de Fé de Westminster diz que Deus é "sem [...] paixões". Essa afirmação vai além do que afirmamos na nossa definição da imutabilidade de Deus e afirma algo mais do que o fato de Deus não mudar no seu ser, nas suas perfeições, nos seus propósitos e nas suas promessas - declara também que Deus nem sequer sente emoções ou "paixões".

A prova bíblica apresentada pela Confissão de Fé de Westminster está em Atos 14.15, que na Versão do Rei Tiago (KJV), relata que Barnabé e Paulo rejeitaram a adoração do povo de Listra, protestando que eles não eram deuses, mas "homens de paixões como as vossas". A implicação da tradução da KJV seria que aquele que é verdadeiramente Deus não teria "paixões" como as dos homens, ou poderia simplesmente mostrar que os apóstolos estavam reagindo à falsa idéia de deuses desapaixonados suposta pelos homens de Listra (ver v. 10-11). Mas, se o versículo está traduzido corretamente, com certeza não prova absolutamente que Deus não tenha paixões nem emoções, pois o termo grego (homoiopathes) pode simplesmente significar ter circunstâncias ou experiências semelhantes, ou ser de natureza semelhante a outrem. Obviamente Deus não tem paixões ou emoções pecaminosas. Mas a idéia de que Deus não tem nenhuma paixão ou emoção está nitidamente em conflito com boa parte do restante das Escrituras. A verdade é bem o contrário, pois Deus, que é a origem das nossas emoções e que de fato as criou, certamente também sente emoções: Deus se alegra (Is 62.5). Ele se entristece (SI 78.40; Ef 4.30). O seu furor arde contra os seus inimigos (Êx 32.10). Compadece-se dos seus filhos (SI 103.13). Ama com amor perene (Is 54.8; SI 103.17). É um Deus cujas paixões devemos imitar para toda a eternidade, quando nós, como nosso Criador, odiarmos o pecado e nos alegrarmos na justiça.

Deus é ao mesmo tempo infinito e pessoal. No ensinamento da Bíblia, Deus é ao mesmo tempo infinito e pessoal: ele é infinito porque não está sujeito a nenhuma das limitações da humanidade, ou da criação em geral. É bem maior do que qualquer coisa que tenha feito, bem maior do que qualquer coisa que exista. Mas é também pessoal: relaciona-se conosco como uma pessoa, e podemos nos relacionar com ele como pessoas. Podemos orar a ele, adorá-lo, obedecer-lhe e amá-lo, e ele pode falar conosco, alegrar-se conosco e nos amar.

Fora da verdadeira religião encontrada na Bíblia, nenhum sistema religioso admite um Deus ao mesmo tempo infinito e pessoal. Por exemplo, os deuses das antigas mitologias grega e romana eram pessoais (relacionavam-se com as pessoas), mas não infinitos: tinham fraquezas e freqüentes falhas morais e até rivalidades mesquinhas. Por outro lado, o deísmo retrata um Deus infinito mas excessivamente afastado do mundo para envolver-se pessoalmente nele. Da mesma forma, o panteísmo sustenta que Deus é infinito (pois considera-se que todo o universo é Deus), mas tal Deus certamente não pode ser pessoal nem se relacionar com as pessoas.

A importância da imutabilidade de Deus. De início pode não parecer muito importante para nós afirmar a imutabilidade de Deus. A idéia é tão abstrata que talvez não percebamos imediatamente a sua importância. Mas a importância dessa doutrina ficaria mais clara se parássemos um instante para imaginar o que aconteceria se Deus pudesse mudar. Por exemplo, se Deus pudesse mudar (no seu ser, nas suas perfeições, nos seus propósitos ou nas suas promessas), então qualquer mudança seria ou para melhor ou para pior. Mas se Deus mudasse para melhor, então ele não era o melhor ser possível quando nele passamos a confiar. E como podemos estar certos de que agora ele é o melhor ser possível? Mas se Deus pudesse mudar para pior (no seu próprio ser), então que espécie de Deus se tomaria? Por exemplo, será que poderia tomar-se um pouquinho mau, portanto já não plenamente bom? E se pudesse se tornar um pouquinho mau, como então saberíamos que ele não se transformaria num ser bastante mau - ou absolutamente mau? E nada poderíamos fazer, pois ele é muitíssimo mais poderoso do que nós. Assim, a idéia de que Deus poderia mudar leva à terrível possibilidade de que daqui a milhares de anos talvez viéssemos a viver para sempre num universo dominado por um Deus absolutamente mau e onipotente. Difícil imaginar idéia mais aterrorizante. Como então crer num Deus que poderia mudar? Como entregar nossa vida a ele?

Além do mais, se Deus pudesse mudar no tocante aos seus propósitos, então mesmo que na época da redação da Bíblia ele tenha prometido que Jesus voltaria para reinar sobre um novo céu e uma nova terra, talvez hoje ele já tivesse abandonado esse plano, e assim nossa esperança na volta de Jesus seria vã. Ou, se Deus pudesse mudar no tocante às suas promessas, então como poderíamos confiar plenamente na vida eterna? Ou em qualquer outra coisa que diz a Bíblia? Assim, seria possível, quando a Bíblia foi escrita, que ele tenha prometido o perdão dos pecados e a vida eterna a todos os que cressem em Cristo, mas (se Deus pudesse mudar) talvez ele agora tenha mudado de idéia quanto a essas promessas - como poderíamos algum dia ter certeza de algo? Ou talvez a sua onipotência mude algum dia, de modo que mesmo que queira cumprir as suas promessas, já não poderá fazê-Io.

Mesmo uma breve reflexão como essa já demonstra a fundamental importância da doutrina da imutabilidade de Deus. Se Deus não é imutável, então todo o fundamento da nossa fé começa a ruir, e nosso entendimento do universo desmorona, porque nossa fé, nossa esperança e nosso conhecimento dependem, em última análise, de uma pessoa infinitamente digna de confiança - pois é absoluta e eternamente imutável no seu ser, nas suas perfeições, nos seus propósitos e nas suas promessas.