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Podemos definir
a imutabilidade de Deus assim: Deus é imutável no
seu ser, nas suas perfeições, nos seus propósitos
é nas suas promessas; porém, Deus age e sente emoções,
e age e sente de modos diversos diante de situações
diferentes. Esse atributo de Deus é também chamado
inalterabilidade.
Evidências
nas Escrituras: no Salmo 102, encontramos um contraste entre coisas
que podemos julgar permanentes, como a terra ou os céus,
de um lado, e Deus, do outro. Diz o salmista: “Os animais
que pululam no campo. Se eu tivesse fome, não to diria, pois
o mundo é meu e quanto nele se contém” (SI 50.10-12).
“Em
tempos remotos, lançaste os fundamentos da terra; e os céus
são obras das tuas mãos. Eles perecerão, mas
tu permaneces; todos eles envelhecerão como uma veste, como
roupa os mudarás, e serão mudados. Tu, porém,
és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim”.
(SI 102.25-27)
Deus
existia antes da criação dos céus e da terra
e existirá muito depois da destruição dessas
coisas. Deus faz mudar o universo, mas, contrastando com essa mudança,
ele é "o mesmo".
Referindo-se
às suas próprias virtudes da paciência, da longanimidade
e da misericórdia, diz Deus: "Porque eu, o SENHOR, não
mudo; por isso, vós, ó filhos de Jacó, não
sois consumidos" (MI 3.6). Aqui Deus usa uma afirmação
genérica da sua imutabilidade para se referir a alguns aspectos
específicos nos quais ele não muda.
Tiago
lembra aos seus leitores que todos os dons excelentes provêm,
em última análise, de Deus, "em quem não
pode existir variação ou sombra de mudança"
(Tg 1.17). Seu argumento é que, como os dons excelentes sempre
vieram de Deus, podemos estar seguros de que somente dons excelentes
virão dele no futuro, pois o seu caráter jamais muda,
nem sequer em grau mínimo.
A
definição dada acima especifica que Deus é
imutável - não de todos os modos que possamos imaginar,
mas somente nos aspectos que as próprias Escrituras o afirmam.
As passagens bíblicas já citadas referem-se ou ao
próprio ser divino ou a algum atributo do seu caráter.
Disso podemos concluir que Deus é imutável, pelo menos
com respeito ao seu "ser" e com respeito às suas
“perfeições” (ou seja, os seus atributos
ou os vários aspectos do seu caráter).
O
grande teólogo holandês Herman Bavinck observa que
o fato de Deus ser imutável no seu ser é de máxima
importância para a manutenção da distinção
Criador/criatura e para nossa adoração de Deus:
A
definição dada acima também afirma a imutabilidade
ou inalterabilidade de Deus com respeito aos seus propósitos.
"O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios
do seu coração, por todas as gerações"
(SI 33.11). Essa afirmação genérica acerca
do conselho de Deus é sustentada por vários versículos
que falam sobre planos ou propósitos divinos específicos
para toda a eternidade (Mt 13.35; 25.34; Ef 1.4, 11; 3.9,11; 2Tm
2.19; 1Pe 1.20; Ap 13.8). Uma vez tendo determinado que irá
seguramente fazer algo, o propósito de Deus é imutável
e será realizado. De fato, Deus afirma por meio de Isaías
que ninguém mais é como ele nesse particular: “Eu
sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde
o princípio anuncio o que há de acontecer e desde
a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo:
o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha
vontade [...] Eu o disse, eu também o cumprirei; tomei este
propósito, também o executarei” (Is 46.9-11).
Além
disso, Deus é imutável nas suas promessas. Uma vez
tendo prometido algo, Deus não será infiel a essa
promessa: "Deus não é homem, para que minta;
nem filho de homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele
prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não
o cumprirá?" (Nm 23.19; cf. 1Sm 15.29).
Será
que Deus às vezes muda de idéia? Se, porém,
falamos que Deus é imutável nos seus propósitos,
surpreendemo-nos intrigados diante de passagens bíblicas
em que Deus diz que julgaria o seu povo, mas depois, por causa de
orações ou do arrependimento do povo (ou ambas as
coisas), acaba-se apiedando e não condena como dissera que
o faria. Entre os exemplos de recuo depois de ameaça de juízo
estão a bem-sucedida intervenção de Moisés
com oração para evitar a destruição
do povo de Israel (Êx 32.9-14), o acréscimo de quinze
anos à vida de Ezequias (Is 38.1-6) e o fato de Deus ter
voltado atrás na decisão de julgar Nínive,
diante do arrependimento do povo (Jn 3.4, 10). Não serão
casos em que os propósitos de Deus de fato mudaram? E há
também outras passagens nas quais se diz que Deus está
arrependido de ter feito alguma coisa. Basta pensar no arrependimento
de Deus de ter feito o homem na terra (Gn 6.6), ou no arrependimento
de ter ungido Saul rei (1Sm 15.10). Os propósitos de Deus
afinal não mudaram nesses casos?
Esses
exemplos devem todos ser entendidos como expressões verdadeiras
da atitude ou intenção presente de Deus diante da
situação que existe naquele momento. Se a situação
muda, então é claro que a atitude ou expressão
de intenção divina irá também mudar.
Isso quer dizer somente que Deus reage de modos diversos a situações
diferentes. O exemplo da pregação de Jonas aos habitantes
de Nínive nos é útil aqui. Deus vê a
iniqüidade de Nínive e envia Jonas para proclamar: ”Ainda
quarenta dias, e Nínive será subvertida” (Jn
3.4). A possibilidade de que Deus sustasse o juízo se o povo
se arrependesse não é explicitamente mencionada na
proclamação de Jonas registrada nas Escrituras, mas
está logicamente implícita na advertência: o
propósito da proclamação da advertência
é provocar o arrependimento. Uma vez havendo o povo se arrependido,
a situação era diferente, e Deus reagiu de modo diverso
a essa nova situação: "Viu Deus o que fizeram,
como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do
mal que tinha dito lhes faria e não o fez" (Jn 3.10).
Os
casos de Ezequias e da intercessão de Moisés são
semelhantes: Deus dissera que enviaria o juízo, e era uma
declaração verdadeira, desde que a situação
permanecesse a mesma. Mas a situação mudou: alguém
começou a orar sinceramente (Moisés num caso e Ezequias
no outro). Aqui a própria oração fazia parte
da nova situação e de fato foi o que mudou a situação.
Deus reagiu a essa nova situação atendendo a oração
e sustando o juízo. Os casos do arrependimento de Deus diante
da criação do homem e do fato de ter feito Saul rei
também podem ser entendidos como expressões do descontentamento
presente de Deus diante da pecaminosidade do homem. Em nenhum desses
casos a linguagem é forte o bastante para nos fazer pensar
que se Deus pudesse começar de novo e agir de modo diferente,
de fato não criaria o homem nem faria Saul rei. Pode, em
vez disso, subentender que a ação divina anterior
conduziu a acontecimentos que, a curto prazo, lhe trouxeram pesar,
mas que assim mesmo, a longo prazo, acabariam realizando os seus
bons propósitos. Isso é em certo sentido comparável
à conduta do pai humano que permite que seu filho tome um
caminho que ele sabe que trará muito pesar, tanto ao pai
quanto ao filho, mas assim mesmo o permite, pois sabe que um bem
maior e duradouro advirá disso.
A
questão da impassibilidade de Deus. Às vezes, discutindo
os atributos divinos, os teólogos falam noutro atributo,
a saber, a impassibilidade de Deus. Esse atributo, se verdadeiro,
significaria que Deus não tem paixões nem emoções,
mas é "impassível", não sujeito a
paixões. De fato, o capítulo 2 da Confissão
de Fé de Westminster diz que Deus é "sem [...]
paixões". Essa afirmação vai além
do que afirmamos na nossa definição da imutabilidade
de Deus e afirma algo mais do que o fato de Deus não mudar
no seu ser, nas suas perfeições, nos seus propósitos
e nas suas promessas - declara também que Deus nem sequer
sente emoções ou "paixões".
A
prova bíblica apresentada pela Confissão de Fé
de Westminster está em Atos 14.15, que na Versão do
Rei Tiago (KJV), relata que Barnabé e Paulo rejeitaram a
adoração do povo de Listra, protestando que eles não
eram deuses, mas "homens de paixões como as vossas".
A implicação da tradução da KJV seria
que aquele que é verdadeiramente Deus não teria "paixões"
como as dos homens, ou poderia simplesmente mostrar que os apóstolos
estavam reagindo à falsa idéia de deuses desapaixonados
suposta pelos homens de Listra (ver v. 10-11). Mas, se o versículo
está traduzido corretamente, com certeza não prova
absolutamente que Deus não tenha paixões nem emoções,
pois o termo grego (homoiopathes) pode simplesmente significar ter
circunstâncias ou experiências semelhantes, ou ser de
natureza semelhante a outrem. Obviamente Deus não tem paixões
ou emoções pecaminosas. Mas a idéia de que
Deus não tem nenhuma paixão ou emoção
está nitidamente em conflito com boa parte do restante das
Escrituras. A verdade é bem o contrário, pois Deus,
que é a origem das nossas emoções e que de
fato as criou, certamente também sente emoções:
Deus se alegra (Is 62.5). Ele se entristece (SI 78.40; Ef 4.30).
O seu furor arde contra os seus inimigos (Êx 32.10). Compadece-se
dos seus filhos (SI 103.13). Ama com amor perene (Is 54.8; SI 103.17).
É um Deus cujas paixões devemos imitar para toda a
eternidade, quando nós, como nosso Criador, odiarmos o pecado
e nos alegrarmos na justiça.
Deus
é ao mesmo tempo infinito e pessoal. No ensinamento da Bíblia,
Deus é ao mesmo tempo infinito e pessoal: ele é infinito
porque não está sujeito a nenhuma das limitações
da humanidade, ou da criação em geral. É bem
maior do que qualquer coisa que tenha feito, bem maior do que qualquer
coisa que exista. Mas é também pessoal: relaciona-se
conosco como uma pessoa, e podemos nos relacionar com ele como pessoas.
Podemos orar a ele, adorá-lo, obedecer-lhe e amá-lo,
e ele pode falar conosco, alegrar-se conosco e nos amar.
Fora
da verdadeira religião encontrada na Bíblia, nenhum
sistema religioso admite um Deus ao mesmo tempo infinito e pessoal.
Por exemplo, os deuses das antigas mitologias grega e romana eram
pessoais (relacionavam-se com as pessoas), mas não infinitos:
tinham fraquezas e freqüentes falhas morais e até rivalidades
mesquinhas. Por outro lado, o deísmo retrata um Deus infinito
mas excessivamente afastado do mundo para envolver-se pessoalmente
nele. Da mesma forma, o panteísmo sustenta que Deus é
infinito (pois considera-se que todo o universo é Deus),
mas tal Deus certamente não pode ser pessoal nem se relacionar
com as pessoas.
A
importância da imutabilidade de Deus. De início pode
não parecer muito importante para nós afirmar a imutabilidade
de Deus. A idéia é tão abstrata que talvez
não percebamos imediatamente a sua importância. Mas
a importância dessa doutrina ficaria mais clara se parássemos
um instante para imaginar o que aconteceria se Deus pudesse mudar.
Por exemplo, se Deus pudesse mudar (no seu ser, nas suas perfeições,
nos seus propósitos ou nas suas promessas), então
qualquer mudança seria ou para melhor ou para pior. Mas se
Deus mudasse para melhor, então ele não era o melhor
ser possível quando nele passamos a confiar. E como podemos
estar certos de que agora ele é o melhor ser possível?
Mas se Deus pudesse mudar para pior (no seu próprio ser),
então que espécie de Deus se tomaria? Por exemplo,
será que poderia tomar-se um pouquinho mau, portanto já
não plenamente bom? E se pudesse se tornar um pouquinho mau,
como então saberíamos que ele não se transformaria
num ser bastante mau - ou absolutamente mau? E nada poderíamos
fazer, pois ele é muitíssimo mais poderoso do que
nós. Assim, a idéia de que Deus poderia mudar leva
à terrível possibilidade de que daqui a milhares de
anos talvez viéssemos a viver para sempre num universo dominado
por um Deus absolutamente mau e onipotente. Difícil imaginar
idéia mais aterrorizante. Como então crer num Deus
que poderia mudar? Como entregar nossa vida a ele?
Além
do mais, se Deus pudesse mudar no tocante aos seus propósitos,
então mesmo que na época da redação
da Bíblia ele tenha prometido que Jesus voltaria para reinar
sobre um novo céu e uma nova terra, talvez hoje ele já
tivesse abandonado esse plano, e assim nossa esperança na
volta de Jesus seria vã. Ou, se Deus pudesse mudar no tocante
às suas promessas, então como poderíamos confiar
plenamente na vida eterna? Ou em qualquer outra coisa que diz a
Bíblia? Assim, seria possível, quando a Bíblia
foi escrita, que ele tenha prometido o perdão dos pecados
e a vida eterna a todos os que cressem em Cristo, mas (se Deus pudesse
mudar) talvez ele agora tenha mudado de idéia quanto a essas
promessas - como poderíamos algum dia ter certeza de algo?
Ou talvez a sua onipotência mude algum dia, de modo que mesmo
que queira cumprir as suas promessas, já não poderá
fazê-Io.
Mesmo
uma breve reflexão como essa já demonstra a fundamental
importância da doutrina da imutabilidade de Deus. Se Deus
não é imutável, então todo o fundamento
da nossa fé começa a ruir, e nosso entendimento do
universo desmorona, porque nossa fé, nossa esperança
e nosso conhecimento dependem, em última análise,
de uma pessoa infinitamente digna de confiança - pois é
absoluta e eternamente imutável no seu ser, nas suas perfeições,
nos seus propósitos e nas suas promessas.
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