Eleição ou Predestinação .
[Autoria: Profº. Vicente Paula Leite
 

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Eleição ou Predestinação?

A doutrina da eleição ou predestinação aceita pelos reformados, não é uma espécie de determinismo da parte de Deus? Se Ele predestinou, determinou ou elegeu, não faz diferença, pois alguns estão destinados ao céu e outros ao inferno. Além do mais, não há aqui uma contradição pelo fato de que Ele tenha amado ao mundo e dado o Seu Filho por todos? Pedro diz que Ele quer que todos sejam salvos, certo?

Vamos responder em duas partes a pergunta acerca da Doutrina da Eleição e a Doutrina da Predestinação.

 

PARTE 1

I ELEIÇÃO

A escolha por Deus daqueles que crêem em Cristo é uma doutrina importante (Rm 8.29-33; 9.6-26; 11.5, 7, 28; Cl 3.12; 1Ts 1.4; 2Ts 2.13; Tt 1.1). A eleição (gr. eklegoe) refere-se à escolha feita por Deus, em Cristo, de um povo para si mesmo, a fim de que sejam santos e inculpáveis diante dEle (cf. 2Ts 2.13). Essa eleição é uma expressão do amor de Deus, que recebe como seus todos os que recebem seu Filho Jesus (Jo 1.12). A doutrina da eleição abarca as seguintes verdades:

  1. A eleição é cristocêntrica, i.e., a eleição de pessoas ocorre somente em união com Jesus Cristo. Deus nos elegeu em Cristo para a salvação (Ef 1.4). O próprio Cristo é o primeiro de todos os eleitos de Deus. A respeito de Jesus, Deus declara: “Eis aqui o meu servo, que escolhi” (Mt 12.18; cf. Is 42.1,6; 1Pe 2.4). Ninguém é eleito sem estar unido a Cristo pela fé.

 

  1. A eleição é feita em Cristo, pelo seu sangue; “em quem [Cristo]... pelo seu sangue” (Ef 1.7). O propósito de Deus, já antes da criação (Ef 1.4), era ter um povo para si mediante a morte redentora de Cristo na cruz. Sendo assim, a eleição é fundamentada na morte sacrificial de Cristo, no Calvário, para nos salvar dos nossos pecados (At 20.28; Rm 3.24-26).

 

  1. A eleição em Cristo é em primeiro lugar coletiva, i.e., a eleição de um povo (Ef 1.4,5, 7, 9; 1Pe 1.1; 2.9). Os eleitos são chamados “o seu [Cristo] corpo” (Ef 1.23; 4.12), “minha igreja” (Mt 16.18), o “povo adquirido” por Deus (1Pe 2.9) e a “noiva” de Cristo (Ap 21.9). Logo, a eleição é coletiva e abrange o ser humano como indivíduo, somente à medida que este se identifica e se une ao corpo de Cristo, a igreja verdadeira (Ef 1.22,23; ver Robert Shank, Elect in the Son (Eleitos no Filho). É uma eleição como a de Israel no Antigo Testamento (Dt 29.18-21; 2Rs 21.14)).
  1. A eleição para a salvação e a santidade do corpo de Cristo são inalteráveis. Mas individualmente a certeza dessa eleição depende da condição da fé pessoal e viva em Jesus Cristo, e da perseverança na união com Ele. O apóstolo Paulo demonstra esse fato da seguinte maneira:

 

    1. O propósito eterno de Deus para a igreja é que sejamos “santos e irrepreensíveis diante dele” (Ef 1.4). Isso se refere tanto ao perdão dos pecados (Ef 1.7) como à santificação e santidade. O povo eleito de Deus está sendo conduzido pelo Espírito Santo em direção à santificação e à santidade (Rm 8.14; Gl 5.16-25). O apóstolo enfatiza repetidas vezes o propósito supremo de Deus (Ef 2.10; 3.14-19; 4.1-3,13,14; 5.1-18).
    1. O cumprimento desse propósito para a igreja como corpo não falhará: Cristo a apresentará “a si mesmo igreja gloriosa... santa e irrepreensível” (Ef 5.27).

 

    1. O cumprimento desse propósito para o crente como indivíduo dentro da igreja é condicional. Cristo nos apresentará “santos e irrepreensíveis diante dele” (Ef 1.4), somente se continuarmos na fé. A Bíblia mostra isso claramente: Cristo irá “vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis, se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho” (Cl 1.22,23).  
  1. A eleição para a salvação em Cristo é oferecida a todos (Jo 3.16,17; 1Tm 2.4-6; Tt 2.11; Hb 2.9), e torna-se uma realidade para cada pessoa consoante seu prévio arrependimento e fé, ao aceitar o dom da salvação em Cristo (Ef 2.8; 3.17; cf. At 20.21; Rm 1.16; 4.16). Mediante a fé, o Espírito Santo admite o crente ao corpo eleito de Cristo (a igreja) (1Co 12.13), e assim ele torna-se um dos eleitos. Daí, tanto Deus quanto o homem têm responsabilidade na eleição (Rm 8.29; 2Pe 1.1-11).

 

II A PREDESTINAÇÃO

A predestinação (gr. proorizo) significa “decidir de antemão” e se aplica aos propósitos de Deus inclusos na eleição. A eleição é a escolha feita por Deus, “em Cristo”, de um povo para si mesmo (a igreja verdadeira). A predestinação abrange o que acontecerá ao povo de Deus (todos os crentes genuínos em Cristo).

  1. Deus predestina seus eleitos a serem: (a) chamados (Rm 8.30); justificados (Rm 3.24; 8.30); (c) glorificados (Rm 8.30); (d) conformados à imagem do Filho (Rm 8.29); (e) santos e inculpáveis (Ef 1.4); (f) adotados como filhos (Ef 1.5); (g) redimidos (Ef 1.7); (h) participantes de uma herança (Ef 1.14); (i) para o louvor da sua glória (Ef 1.12; 1Pe 2.9); (j) participantes do Espírito Santo (Ef 1.13; Gl 3.14); e (l) criados em Cristo Jesus para boas obras (Ef 2.10).

 

  1. A predestinação, assim como a eleição, refere-se ao corpo coletivo de Cristo (i.e., a verdadeira igreja), e abrange indivíduos somente quando inclusos neste corpo mediante a fé viva em Jesus Cristo (Ef 1.5, 7, 13; cf. At 2.38-41; 16.31).

III RESUMO (Eleição e Predestinação)

No tocante à eleição e predestinação, podemos aplicar a analogia de um grande navio viajando para o céu. Deus escolhe o navio (a igreja) para ser sua própria nau. Cristo é o Capitão e Piloto desse navio. Todos os que desejam estar nesse navio eleito, podem fazê-lo mediante a fé viva em Cristo. Enquanto permanecerem no navio, acompanhando seu Capitão, estarão entre os eleitos. Caso alguém abandone o navio e o seu Capitão, deixará de ser um dos eleitos. A predestinação concerne ao destino do navio e ao que Deus preparou para quem nele permanece. Deus convida todos a entrar a bordo do navio eleito mediante Jesus Cristo.

 

PARTE 2

A partir das doutrinas expostas acima, tecemos a seguir o seguinte comentário.

Por que muitos são chamados, mas poucos escolhidos? Duas vezes Mateus registrou essa difícil fala do Senhor. A primeira foi quando Ele relacionou o Reino dos Céus ao pagamento de salário aos trabalhadores de uma vinha (Mateus 20.1-16). A segunda foi quando o Senhor Jesus descobriu um intruso na festa nupcial do filho do rei (Mateus 22.1-14).

A intrigante mensagem sobre muitos chamados e poucos escolhidos trata de julgamento e separação: a separação de escolhidos e rejeitados. Na minha leitura, entendo que muitos são chamados à conversão, mas apenas uns poucos são realmente nascidos do Espírito Santo.

Quem pode imaginar o próprio Deus separando pessoas, umas para a Salvação e outras para a punição eterna?

Em épocas de crise, era costume do povo de Israel levantar clamor ao Deus de seus pais, Abraão, Isaque e Israel. E, diante dessa atitude de fé, o Senhor Jesus escolhia um líder para salvá-lo.

Portanto, a escolha divina das pessoas já era de praxe naqueles tempos. E o Senhor Jesus, nos trechos bíblicos que citamos, fortalece a idéia de muitos chamados e poucos escolhidos.

O que temos visto por esse mundo afora não deixa de confirmar essa profecia, pois são muitos os crentes, porém poucos os nascidos de Deus.

E qual seria o critério usado por Deus na separação dos bodes das ovelhas? Qual seria o propósito de dar a alguém a condição de nova criatura ou de salvador da pátria?

Tanto para um quanto para o outro, as regras são as mesmas: não se pode ser tímido nem medroso! Para seguir a Palavra divina, não basta somente acreditar; é preciso muito mais que isso. É necessário assumir a fé, colocando-a em prática sob quaisquer circunstâncias.

Daí a razão por que poucos são os escolhidos: porque nem todos estão dispostos a abrir mão de sua vontade para seguir ao Senhor Jesus, obedecendo à Sua Palavra!

Quem está pronto para negar a si mesmo e atender ao chamado divino? Quem se dispõe pela causa de Deus?

Em princípio, o critério da escolha, no passado, eliminava os tímidos e medrosos. Ou seja, os covardes ficavam para trás.

O fato é que o Reino dos Céus é tomado apenas pelos valentes. Assim também acontece em relação ao critério estabelecido por Ele na separação de Seus escolhidos.

A posse do Reino de Deus exige ação, atitude, coragem, audácia e valentia. Porque quem quiser sair do reino das trevas terá que ser mais forte do que ele. E quem quiser entrar no Reino dos Céus tem que estar disposto a arriscar tudo; até a própria vida!

Sem dúvida nenhuma, o perfil da pessoa escolhida por Deus é desafiador. O Senhor Jesus não avalia o físico ou o intelecto, mas a coragem que se tem de agir de acordo com Sua direção!

PARTE 3

E agora em resumo a tudo o que foi citado supra, leia o texto abaixo. E que Deus te abençoe.

RESUMO GERAL: Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos
 
1. VESTE NÚPCIAL (Mt 22.11)

De acordo com Mateus 22.11, muitos, que fazem parte da presente manifestação do reino dos céus aqui na terra, não estarão trajado com veste nupcial (v. 11), e, portanto, não farão parte dos escolhidos (v. 14). A veste nupcial simboliza a condição de se estar preparado uma possessão presente da verdadeira fé em Cristo e da constante obediência como fruto da graça de Cristo (cf. Mt 24.44; 25.21). Cristo alude ao homem que estava sem vestes nupciais, para levar-nos a um auto-exame e perguntar-nos, Senhor, sou eu?.

2. POUCOS ESCOLHIDOS

A chamada à salvação é feita a muitos. Os poucos escolhidos para herdar o reino dos céus (Mt 22.14) são os que atendem à chamada de Deus; que se arrependem dos seus pecados e que crêem em Cristo. Acolher a graça de Deus mediante o livre exercício da nossa vontade faz com que nos tornemos parte do povo escolhido de Deus.

Pr. Vicente Leite