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Auê (A Fé Ganhou)

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  • há 12 minutos
  • 9 min de leitura

Não será a primeira nem a última polêmica envolvendo músicas no meio gospel — e, de certo modo, isso é saudável. Quando a controvérsia surge, ela nos provoca a pensar, e a qual

idade da nossa análise revela o quanto estamos preparados para dialogar com maturidade.


Alguns preferem argumentos mais emocionados; outros, um caminho mais racional. Mas todo teólogo e estudante da Bíblia precisa desenvolver a habilidade de trabalhar bem os argumentos em defesa da fé cristã. Isso aprendemos, por exemplo, na disciplina de Lógica do Curso Avançado em Teologia, quando somos confrontados com falácias argumentativas que tentam maquiar a verdade. E, para nós, essa verdade é a Palavra de Deus.


A música Auê trouxe à tona uma avalanche de comentários. Houve quem apoiasse, quem se encantasse com a proposta artística e também quem se sentisse profundamente incomodado. Esse cenário não é novo. Recordo-me da polêmica em torno da canção Sabor de Mel, acusada por muitos de exaltar o orgulho humano e um espírito de vingança.


O caso atual, porém, apresenta um elemento adicional: além de traços musicais claramente influenciados pela cultura afro-brasileira, a letra revela nuances de inspiração extra bíblica, distantes da linguagem cristocêntrica que a igreja historicamente reconhece como louvor. É justamente aí que os mais conservadores se levantam com veemência para questionar.

Neste artigo, proponho uma reflexão que deseja somar ao debate, e não encerrá-lo. Não se trata de uma sentença final, mas de mais uma voz entre tantas que já se posicionaram, buscando analisar o tema à luz das Escrituras, da teologia do culto e da responsabilidade pastoral com aquilo que a igreja canta.


Primeiramente, temos que considerar que o culto cristão deve ser moldado pela revelação bíblica. Por isso, toda música utilizada como louvor deve ser examinada segundo três critérios históricos da fé evangélica:


  1. Cristocentricidade – Cristo como centro da mensagem (Cl 3.16).

  2. Conteúdo bíblico – verdade revelada, não experiência subjetiva (Jo 17.17).

  3. Edificação da igreja – fruto espiritual e clareza doutrinária (1Co 14.26).

A canção conhecida como “Auê (A Fé Ganhou)” tem sido apresentada em ambientes cristãos, mas seu conteúdo suscita graves questões teológicas. Vejamos o que diz a letra:

 

1.     Primeira estrofe – Antropocentrismo e ausência de Evangelho

 

Com a folha, eu aprendi como se deve cair E agora, com as mãos estendidas Você quer me levantar, diz que aqui é meu lugar Com minhas roupas, minhas falhas, minhas birras

Elementos centrais: queda pessoal, sentimento de abandono, alguém que “estende as mãos” e afirma “aqui é meu lugar”.


A narrativa inicial descreve uma experiência humana de fragilidade e acolhimento. Contudo:

  • Não há referência a Deus, a Cristo ou à obra redentora.

  • O “alguém” que levanta não é identificado como o Salvador.

  • O problema do pecado é tratado como falha emocional, não como ruptura com Deus.


O que a Bíblia diz:

  • A Escritura ensina que o homem caído necessita de redenção objetiva:

“Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23).

  • Quem levanta o pecador é Cristo pela cruz, não um acolhimento genérico:

“Ele me tirou de um poço de perdição” (Sl 40.2).

 

2. Refrão “Auê” – Auê (auê-auê, auê-ah, auê-auê) (Auê-ah, auê-auê, auê-ah, auê-auê)

O refrão repete vocalizações sem significado claro e expressões próximas de mantras culturais. A igreja não ora nem canta palavras cujo sentido desconhece.

 

Problema teológico

  • Louvor bíblico é inteligível e confessional (1Co 14.15).

  • A repetição sem conteúdo aproxima-se de práticas extáticas, não da adoração racional (Rm 12.1).


Princípio bíblico

“Cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente” (1Co 14.15).

O apóstolo Paulo é enfático ao tratar do culto racional. Em Romanos 12.1, ele exorta a igreja a oferecer a Deus um “culto racional” — logikḗ latreía — indicando que a verdadeira adoração envolve mente, consciência e discernimento, e não apenas impulso emocional. Para Paulo, adorar é responder a Deus com entendimento do que se fala e do que se canta, com participação lúcida e voluntária.

Esse princípio torna-se ainda mais claro em 1Coríntios 14.15–19. Ali, o apóstolo afirma:

“Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente” (v.15).

Paulo rejeita qualquer prática religiosa que dispense o entendimento. Ele declara que prefere “falar cinco palavras com o entendimento” a pronunciar “dez mil palavras em outra língua” sem edificação (v.19). O critério central é a edificação da igreja e a consciência do adorador.


À luz desse ensino, comportamentos marcados por descontrole — movimentos convulsivos, ações sem domínio do corpo ou estados em que a pessoa afirma não se lembrar do que fez — não correspondem ao modelo paulino. A Escritura descreve o fruto do Espírito como domínio próprio (Gl 5.23), e não como perda de consciência. A adoração bíblica é fervorosa, mas nunca irracional; é intensa, mas não caótica.

Emoção legítima x êxtase desordenado


A Bíblia não condena a emoção no culto. Os Salmos revelam lágrimas, júbilo, clamor e celebração. A emoção é parte da experiência humana diante de Deus. Contudo, há diferença entre:

  • emoção legítima – resposta afetiva à verdade revelada, que brota do entendimento e conduz à santidade;

  • êxtase desordenado – manifestação que ignora a mente, centraliza o indivíduo e rompe com a ordem comunitária.


A emoção legítima nasce da Palavra:

“A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).

Já o êxtase desordenado desloca o foco de Cristo para a experiência pessoal, transformando o culto em espetáculo subjetivo. Paulo estabelece o limite:

“Tudo seja feito para edificação… com decência e ordem” (1Co 14.26,40).

Portanto, tanto letras de músicas quanto expressões corporais precisam passar pelo mesmo crivo: conduzem ao conhecimento de Cristo e à edificação da igreja ou apenas estimulam sensações? O culto cristão não rejeita a emoção, mas a submete à verdade; não apaga o espírito, mas o orienta pela mente renovada.

 

3. Bloco narrativo – “Agora que o Zé entrou e todo mundo viu E todo mundo olhou, e todo mundo riu Ninguém se acostumou, mas o céu se abriu /Agora que a fé ganhou e a Maria sambou Sua saia balançou, alguém se incomodou Com a cor que ela mostrou, mas o céu coloriu (mas o céu coloriu) Auê, dança na ciranda da fé Que te abriu (que te abriu) as portas Auê, solta tua criança até Explodir em glória”.

O bloco que se inicia com as expressões “Agora que o Zé entrou e todo mundo viu… Agora que a fé ganhou e a Maria sambou” é, sem dúvida, o ponto mais sensível de toda a composição. Aqui a letra abandona qualquer possibilidade de leitura cristológica e mergulha em uma narrativa de caráter popular, sem vínculo reconhecível com a revelação bíblica.


·       Narrativa sem objeto de fé

A frase “agora que a fé ganhou” surge sem definição alguma do que seja essa fé.A Escritura, porém, nunca trata a fé como conceito abstrato:

“A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Cristo” (Rm 10.17).

Na canção, a fé não possui objeto — não aponta para Cristo, para a cruz, para o arrependimento ou para a graça. Torna-se apenas um sentimento coletivo que “vence”, mas não se sabe o que venceu, por meio de quem, nem com qual fundamento.

·       Imagens culturais sem referência bíblica

O verso que menciona “Maria sambou, sua saia balançou” levanta questões inevitáveis:

  • Quem é essa “Maria”?

  • Qual o contexto dessa dança?

  • O que significa o balançar da saia como expressão espiritual?

Não há, em toda a Bíblia, qualquer símbolo que relacione adoração com esse tipo de imagem. Os cânticos das Escrituras exaltam a santidade de Deus, sua redenção e seus atributos (Ap 5.9-12; Sl 96.1-4). Aqui, porém, a cena descreve um quadro folclórico, não um ato de culto.


 “Ciranda da fé” e infantilização da adoração

A expressão “dança na ciranda da fé… solta tua criança até explodir em glória” reforça uma espiritualidade emocional e lúdica.Entretanto, Paulo orienta:

“Cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente” (1Co 14.15).

A adoração bíblica não é regressão à infância, mas amadurecimento espiritual. O apóstolo afirma. Transformar o culto em “ciranda” desloca o centro da glória de Deus para a experiência sensorial do homem.

·       Ausência completa de base escriturística

Ao tentar relacionar esse trecho com qualquer texto bíblico, não encontramos apoio:

  • não há referência ao nome de Jesus;

  • não há menção à obra da cruz;

  • não há linguagem de arrependimento, graça ou santidade;

  • não há sequer o vocabulário clássico dos Salmos.

Trata-se de poesia popular, não de confissão cristã. E o louvor da igreja sempre foi confessional (Cl 3.16).

 

Por que causa choque nos mais conservadores?

Esses símbolos — ciranda, saia balançando, vocalizações sem sentido — não pertencem ao universo bíblico. A tradição evangélica estranha tais imagens porque elas:

  • aproximam o culto de expressões religiosas sincréticas;

  • substituem a doutrina por estética;

  • confundem emoção cultural com adoração.

 

Além do conteúdo literário da canção, outro fator que ampliou a controvérsia foi a estética adotada pelo intérprete. Durante a apresentação, o cantor utilizava colares e adereços visuais muito semelhantes aos empregados em expressões religiosas de matriz afro, especialmente do candomblé. Essa escolha estética provocou imediata associação com práticas místicas e levantou questionamentos sobre possíveis aproximações com o ecumenismo religioso.


É importante reconhecer que, na comunicação do culto, a forma também ensina. Símbolos, vestimentas e gestos carregam significados que não são neutros. A Escritura demonstra que Deus se preocupa não apenas com a intenção do coração, mas também com a maneira como o Seu povo O representa publicamente (Êx 28.2; 1Co 8.9).


Para muitos fiéis, tais elementos visuais sugeriram uma mistura entre a fé cristã e tradições espirituais incompatíveis com o Evangelho. Paulo adverte:

“Que comunhão há entre a luz e as trevas? Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos?” (2Co 6.14–16).


A preocupação, portanto, não é meramente estética, mas doutrinária e pastoral. Quando símbolos associados a outras religiões são incorporados ao ambiente do louvor, corre-se o risco de:


  1. Confundir novos convertidos quanto à identidade da fé cristã;

  2. Relativizar a exclusividade de Cristo como único mediador (1Tm 2.5);

  3. Transformar o culto em espaço de sincretismo, e não de proclamação do Evangelho.


O cristianismo sempre dialogou com culturas, mas jamais diluiu sua mensagem para se adequar a elas. A contextualização legítima submete a cultura à Palavra; o sincretismo, ao contrário, submete a Palavra à cultura. Assim, a reação de muitos crentes conservadores não nasce de preconceito cultural, mas do zelo por um princípio bíblico fundamental: o culto deve apontar claramente para Cristo e distinguir-se de toda forma de religiosidade que negue Sua centralidade (Cl 1.18).

 

A partir de tudo o que foi exposto, não desejamos apenas criticar uma obra específica, mas formar critérios para que a igreja saiba discernir as próximas músicas que surgirem no chamado “mercado gospel”. Todos os dias novas composições são lançadas, e nem tudo o que recebe o rótulo de cristão realmente serve ao culto do Senhor.

Por isso, propomos alguns filtros que devem orientar nossas escolhas.


1. Pergunte: esta canção é cristocêntrica?

O primeiro critério é sempre Cristo.Uma música de louvor precisa:

  • apontar para a pessoa e a obra de Jesus;

  • falar de redenção, graça, cruz, ressurreição e senhorio;

  • reconhecer que Ele é o centro da adoração.


Se Cristo pode ser retirado da letra sem que o sentido mude, essa canção não é cristã — é apenas religiosa.

“Para que em tudo Ele tenha a primazia” (Cl 1.18).


2. Pergunte: há fundamento bíblico claro?

Não basta que a letra seja bonita ou emocionante. Ela deve:

  • refletir verdades das Escrituras;

  • evitar conceitos ambíguos ou místicos;

  • conduzir o adorador ao conhecimento de Deus.

“Habite ricamente em vós a palavra de Cristo, ensinando-vos com salmos e cânticos espirituais” (Cl 3.16).


3. Pergunte: edifica a igreja?

O cântico congregacional não é palco de expressão individual, mas instrumento de edificação coletiva. Precisamos avaliar se a música:

  • fortalece a fé dos irmãos;

  • é compreensível para a comunidade;

  • promove reverência e temor.

“Tudo seja feito para edificação” (1Co 14.26).


4. Pergunte: distingue a igreja do mundo?

A contextualização é legítima, mas há um limite. Quando uma canção:

  • reproduz símbolos de outras religiões,

  • dilui a identidade cristã,

  • transforma o culto em espetáculo cultural,

ela deixa de servir ao propósito bíblico.

“Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12.2).


5. Pergunte: quem é o protagonista?

No louvor bíblico:

  • Deus é o centro,

  • o homem é o adorador,

  • a glória pertence ao Senhor.

Quando o “eu”, a autoafirmação ou a experiência pessoal ocupam o lugar principal, estamos diante de música devocional subjetiva, não de adoração da igreja.

“Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Teu nome dá glória” (Sl 115.1).

 

Nosso objetivo não é apagar a criatividade nem demonizar a arte. A igreja sempre produziu música bela e contextualizada. Contudo, beleza sem verdade não é louvor.

Que cada líder, músico e membro aprenda a perguntar:

  • Isso me leva a Cristo?

  • Isso ensina a Palavra?

  • Isso edifica o corpo de Cristo?


Se a resposta não for clara, é melhor silenciar do que oferecer a Deus um cântico vazio.

“Importa que O adoremos em espírito e em verdade” (Jo 4.24).

Que o Senhor nos conceda discernimento para que nossas igrejas cantem não o que está na moda, mas o que está na Bíblia.

 

Referências bíblicas principais

  • João 4.23-24 – adoração em espírito e verdade

  • Colossenses 3.16 – cânticos que ensinam a Palavra

  • 1Coríntios 14.15 – inteligibilidade no louvor

  • 2Coríntios 6.14-16 – separação do sagrado e profano

  • Romanos 10.17 – fé centrada na Palavra de Cristo

  • Apocalipse 5.9-12 – cristocentricidade do louvor


Referências teológicas

  • CARSON, D. A. Adoração na Igreja.

  • TOZER, A. W. O Propósito do Homem: Adorar a Deus.

  • KOSTENBERGER, A. Teologia Bíblica do Culto.

  • FRAME, John. Adoração em Espírito e Verdade.

 

Que o Senhor nos dê discernimento para que nossas canções não sejam eco da cultura, mas voz da Igreja que proclama Cristo crucificado e ressurreto.

Você deseja se aprofundar mais no tema de louvor e adoração? No curso Básico em Teologia, apresentamos um estudo profundo e detalhado sobre o tema. Acompanhe nossos conteúdos, participe das aulas do Ibetel e não tenha medo de perguntar, pesquisar e examinar tudo à luz das Escrituras.

 

Profa. Queila Leite

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